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  • Mateus Davi Pinto Lucio

A Prova do Tempo

Atualizado: 26 de Ago de 2018



Eis provavelmente um dos mecanismos de defesa mais sublimes da psiqué humana, que geralmente atua sob as camadas mais profundas de consciência e que age, via de regra, de

uma maneira mais qualificada e assertiva que as demais.


Embora nossa subconsciência ou intuição nos pregue peças em várias momentos de nossas vidas, geralmente na forma de medo e ansiedade, fazendo as pessoas tremerem e suarem de tanta adrenalina ao passar por um susto ao volante ou fazendo pularmos da cama ao ouvir um som suspeito em alguma parte da casa, qual não é nossa surpresa, e muitas vezes das pessoas ao lado, ao em situações eventualmente críticas nos portarmos

imbuídos de uma frieza ou parcimônia verdadeiramente notáveis.


Uma reflexão mais dedicada a este fenômeno logo nos revela a razão, numa palavra: a experiência. Na medida em que se repete os eventos de estresse em nossas vidas, o cérebro como que se fizesse um Google meio que nos provê uma mensagem: “você já passou por isso e já sabe o que fazer”. Eis a razão para nos espantarmos com a segurança dos agentes envolvidos em ações policiais. Em situações que nos desmantelaríamos de tanta apreensão e nervosismo, os personagens participantes de abordagens e tiroteios parecem tão firmes e concatenados ao que estão fazendo e a forma como fazem que não raramente são realizações espantosas de se assistir, mesmo pela televisão. É tudo tão bem feito que, não raro, os policiais geralmente têm grande chance de sucesso ao reagir a assaltos, especialmente quando impingidos contra eles mesmos, ainda que fora de serviço.


Eles não ficam nervosos porque para eles a situação não é enervante, mas não ficam nervosos porque já ficaram tantas e tão rotineiramente vezes ao longo de suas vidas, especialmente em suas atribuições profissionais que tudo acaba, apesar de pequenos nuances, sendo mais do mesmo. A eficiência no subconsciente da repetição dos eventos e não obstante da repetição dos sentimentos é tão interessante que, ainda que alguma desarmonia sentimental eventualmente ocorra, muito raramente ela se traduz em ações ou

afeta as ações que estão sendo realizadas.


Mas o nosso subconsciente, isto é, nosso arcabouço de memórias discretas, acessíveis só quando evocadas com foco, como, por exemplo, ao tentarmos lembrar o nome da rua da casa onde moramos na infância ou, para a maior parte dos homens, o aniversário de casamento, age de mais maneiras e muitas vezes bem mais sutis do que as dos exemplos

supracitados. Explico.


Quando em um novo relacionamento, em que dois jovens estão se vendo há uma semana apenas, mas que se falam o tempo todo e o dia inteiro, costuma ser um momento de grande apreensão e receio quando, por uma razão qualquer, o parceiro deixa de telefonar, ou, hoje

em dia, mandar um WhatsApp.


Essa preocupação advém do fato de que, para aquele caso, para o nosso subconsciente, aquele é um evento novo, isto é, a pessoa querida não entrou em contato, irrompendo toda sorte de mecanismos de defesa que podem se extravasar na forma de angústia, ciúmes, raiva, desconfiança e agressividade. É a nossa psiqué, e não nossa razão, que nos coloca em posição defensiva, pois ainda que nossa razão encontre mil motivos e possibilidades para a pessoa não estar apta a entrar em contato, sendo grande parte delas extremamente plausíveis, nosso subconsciente, buscando nos defender, para evitar a dor, busca reprimir

nosso afeto.


Curioso que o mesmo fato, sob as mesmas circunstâncias e entre exatamente as mesmas duas pessoas, mas ocorrendo daqui a um, dois anos ou mais, já não tem o mesmo efeito ou não tem efeito algum na forma de insegurança emocional. Esse evento já se passou tantas vezes que nosso subconsciente não mais corrobora a tese que nos levaria a angustia ou ao ciúme, sendo mais frequentes em relações maduras a preocupação ser mais voltada a segurança da pessoa amada, quando não retorna nossas chamadas, do que a desconfiança que ela possa não mais estar emocionalmente conectadas conosco. Quanto mais naturalmente ciumenta a pessoa é, sinal de que ou por menor repetição de eventos relacionados a insegurança emocional ela passou ao longo da vida, tanto que geralmente os muito jovens são muito ciumentos, ou a pessoa tem uma menor capacidade de assimilar a repetição dos eventos, sendo uma pessoa categoricamente ciumenta ou desconfianda, ainda assim, com a maturidade em termos de idade ou no relacionamento em específico, é

comum uma melhor nas suas erupções emocionais.


Após algum tempo a conexão fica tão sedimentada que só com muito esforço testemunharíamos qualquer demonstração de ciúmes, onde só a quebra concreta da confiança, através de um fato novo, zeraria a memória discreta que o nosso subconsciente se esforçou tanto para erigir, levando a relação a um ponto de difícil retorno, qual nunca mais poderá ser o mesmo, senão pela reconstrução de uma nova memória discreta. Note que suprimir uma memória discreta, tornando-a praticamente inacessível, verdadeiramente reprimida, é levá-la para além do subconsciente, mas ao inconsciente, lugar onde fica tudo aquilo que de um modo ou de outro queremos esquecer para sempre, como todos os eventos traumáticos que passamos ao longo da vida, como assaltos ou qualquer outro tipo de violência. A capacidade de reprimir a memória, por exemplo, da quebra de confiança do cônjuge, arrastando ela do subconsciente até o inconsciente é mister nos casos em que houve uma quebra traumática da confiança, alcançável, em grande parte dos casos,

somente através de terapia.


No mundo dos negócios o subconsciente também marca presença de uma maneira muitas vezes tão sutil que nem mesmo notamos. As pessoas com mais de trinta anos se consultarem os respectivos subconscientes provavelmente recordarão a enorme desconfiança que existia com as modalidades de e-commerce que começaram a surgir. A coisa de uma década atrás, não sem grande dose de medo, e só se o valor do produto fosse muito baixo, as pessoas compravam através do Mercado Livre, e ainda assim com apreensão e cautela. Qual não é a surpresa ao analisar o comportamento do consumidor de uma década para outra ao vermos hoje com que tremenda indiferença e frivolidade não se compra produtos de qualquer valor e de qualquer parte do mundo com base, quando muito, em uma reputação virtual. E a este fenômeno chamamos de A Prova do Tempo.


Foi o tempo, e não as atualizações das normas e leis, que na verdade nunca ocorreram verdadeiramente, que provaram aos consumidores que, pode ficar tranquilo, não importa o quão longe esteja o seu produto, de quem está comprado, por qual preço e por qual meio, pois ele vai chegar, e geralmente, com efeito, chega. Este é um assunto para outro artigo, mas a análise do caso concreto revela que é mais recompensador vender e realmente entregar, podendo, portanto, manter a reputação e vender para sempre, do que, em um evento praticamente único, calotear todos os compradores, ganhar alguns tostões e nunca mais estar apto a vender nada para ninguém. É o tempo, uma vez mais, que separa o joio do trigo, e só quem sobrevive as provas que o tempo dá aquele que faz aquilo que diz que

faz, seja entregar um produto, seja prover um serviço.


Curiosamente, o tempo também prova que as outras formas de prova, por exemplo, de credibilidade, não passam pela prova do tempo. Os americanos já abandonaram há anos a exigência de reconhecimento de firma em cartório, existindo, hoje, no máximo, uma assinatura eletrônica com base em autenticação realizada a partir de um e-mail cadastro em sites como o DocuSign, que fazem uma validação digital e simples das partes que compõe um contrato. O tempo já provou, embora o provincianismo que ainda se encontre no Brasil, que qualquer estelionatário, ainda que amador, supera as validações cartoriais de assinaturas. Aliás, sobretudo hoje em dia, é mais fácil falsificar uma assinatura do que invadir uma conta de e-mail. Qual a dificuldade de scanear sua assinatura e inseri-la em um documento qualquer? O reconhecimento de firma em cartório não passa pela prova do

tempo, há muito tempo.


Outras demonstrações de credibilidade como, por exemplo, as certificações e licenças governamentais estão se provando, com o tempo, completamente inúteis. Não há esforço legislativo, jurisprudencial e fiscalizatório suficientes que previnam que frigoríficos e distribuidores falsifiquem alimentos como carnes e suas embalagens. É o tempo, e não o carimbo da Anvisa, que provam aos consumidores os fornecedores que se pode confiar. Até hoje, embora existam há mais de década, as pessoas confiam pouco em medicamentos genéricos, sendo que só os compram em função do preço muito menor, mas é consenso, ao perguntar a quase qualquer pessoa a reflexão de que “não é tão bom quanto o original”. As agências do governo, embora aprovem e certifiquem tais medicamentos, não convencem a população, pois é o tempo, e não o rigor legislativo, que inspiram confiança. E o tempo vem dizendo as pessoas que o genérico não é tão bom assim, embora todo o esforço do Estado

em demovê-los dessa ideia.


Até mesmo em casos mais sensíveis, como dos bancos, o tempo, e não o Banco Central, vem se provando mais eficiente em avaliar a credibilidade das instituições financeiras. O caso recente do Banco Neon, e os não tão antigos assim como o do Banco Panamericano, Banco Cruzeiro do Sul, Banco Prosper, Banco Oboé, o Banco Morada e o Banco Santos vem notabilizando que uma instituição, ainda que premiada com o selo de “banco” pelo Banco Central não inspira, por si só, isto é, o selo do agente central, digno de confiança.

Selos, contratos, balanços e balancetes qualquer empresa é capaz de produzir, mas superar a prova do tempo, ah, isso não, só se souber realmente o que se está fazendo.


Mateus Davi Pinto Lucio

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