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  • Mateus Davi Pinto Lucio

Se o dólar subiu, é natural

Atualizado: 31 de Ago de 2018



É surpreendente notar como as pessoas parecem surpreendidas com as altas que o dólar dá de tempos em tempos. Surpreendente, sim, pois estranho é justamente o oposto, ou

seja, quando o dólar cai.


Associa-se muito, e há razão nisso, as flutuações do dólar com a entrada e saída de capitais, especialmente estrangeiro. A lógica faz sentido, se o Brasil se torna atraente ao investidor de fora, ele venderá o dólar para comprar o real, estando, assim, em moeda local para realizar diversos tipos de investimentos, bem como especulações no mercado financeiro, em território nacional. Tal operação cambial naturalmente influencia a deterioração dos preços das moedas de outros países ante a nossa. Até aí, sem novidades.


Porém, o problema do valor do dólar passa a ganhar uma outra dimensão quando saímos das operações de curto e curtíssimo prazo para a compreensão da variação do dólar no longo prazo. Não havendo uma revolução em nossa política econômica e não se fazendo uma pirotecnia financeira, a tendência do dólar é sempre subir. Tudo isso por uma razão

muito simples: inflação.


Inflação


Quando o assunto é economia, parafraseando o dinamarquês Kierkegaard, “a [inflação] é a palavra mais repetida de todos os dias, e inquestionavelmente a palavra mais desprovida de sentido”. Isto, pois, embora muito repetida é bem pouco compreendida entre as pessoas.


Inflação não se trata de uma taxa sazonal de alta nos preços, mas de uma diluição do valor do dinheiro. Não são as coisas que se tornaram mais caras, mas foi o dinheiro que se

degradou em valor.


Pense no seguinte exemplo. Um saco de arroz custa aproximadamente quatro sacos de feijão. Ceteris paribus (todo o mais constante), não importa se a inflação for 10%, 20% ou 100%, ao dia, ao mês ou ao ano, um saco de arroz continuaria custando quatro sacos de feijão.


Agora, imagina que seu salário não é em reais, mas em sacos de feijão. Caso não haja nenhum impacto no arroz ou no feijão em relação as safras ou volume de exportação, você passaria a vida toda absolutamente insensível a inflação monetária, do real.


Sendo o feijão um bem escasso, ele poderia ser uma moeda de troca, como em outros tempos já foi o ouro, a prata e até o sal. Porém, se o feijão fosse uma moeda de troca, de fato, as pessoas passariam a produzi-lo deliberadamente, e ficaria tão abundante, que apenas quatro sacos de feijão para um saco de arroz perderia o sentido. O arroz passaria a ser raro e o feijão abundante, de sorte que em pouco tempo necessitaria de dez, quinze

sacos de feijão para comprar um único de arroz.


Um caso histórico semelhante da inflação sobre bens de troca se deu nas negociações da Coroa Portuguesa com a Inglaterra, no período conhecido como Ciclo do Ouro. O ouro extraído do Brasil e levado para a Europa começou a ser tão abundante que para trocar um bem por ouro, naturalmente, passou-se a pedir mais e mais onças do metal precioso.


Qualquer coisa, sejam moedas, produtos e até serviços, quanto mais raros, mais caros, e quanto mais abundantes, menos valem. Se, hipoteticamente, numa canetada do governo, fosse decretada uma lei em que todos os brasileiros passariam a ganhar o dobro do que ganham hoje imediata e irrestritamente, o que aconteceria, como consequência imediata, é tudo passar a valer o dobro. Se você está contente que ganhava cinco mil reais e passou a ganhar dez mil reais, ficará triste ao ir no Mcdonalds e descobrir que o BigMac que custava R$ 20,00 passou a valer R$ 40,00. Você dobrou seus ganhos, e toda a indústria dobrou

seus custos.


Um último exemplo. Imagina que uma empresa valha 1 milhão de reais e seja divida em 1 milhão de ações. Cada ação, portanto, vale R$ 1,00. Caso a empresa, numa operação chamada desdobramento, emitisse outro 1 milhão de ações, a empresa não passaria a valer mais, mas as ações que passariam a valer menos, ou seja, R$ 0,50.


Em uma situação real, no caso do mercado financeiro, os detentores de ações dobrariam suas posições, tendo em vista que suas ações passaram a valer metade. No caso do governo, ele imprime dinheiro (ou disponibiliza digitalmente através dos bancos), diluindo seu valor, e só um dia, em um eventual dissídio, você terá sua receita incorporada com a inflação, mas durante todo este período você sofreu uma deterioração no seu poder de compra.


A impressão de dinheiro funciona como a diluição de uma essência de perfume. Se 100 mls de essência de um perfume equivale ao valor de um celular, o fato de você diluir a sua essência com água apenas inflacionará o seu bem de troca. Se, antes, com 100 mls de essência você comprava um celular, como colocou 50 mls de água, o valor do celular passou a ser 150 mls de essência diluída. Não foi o celular que ficou mais caro, foi seu bem de troca, na forma de moeda, de dinheiro, que passou a ter menos valor. Eis o que é a inflação.


E o dólar?


A analogia se estende a tudo. Como no Brasil se imprime mais dinheiro do que nos Estados Unidos, pouco a pouco a deterioração de nossa moeda será refletida na valorização do dólar. Houve um tempo em que o BigMac custava R$ 5,00, e 1 dólar valia 1 real. Hoje o dólar vale quatro vezes mais, e, naturalmente, o BigMac também. Não é o lanche que ficou

mais caro, é seu dinheiro que se tornou uma moeda barata.


E por isso que é um disparate achar que os investimentos no Brasil, em renda fixa, são mais atraentes do que nos países desenvolvidos. Se descontar a inflação, o que realmente se ganhou com a renda fixa, com muito esforço, chegará a 3,0% ao ano, tão atraente quanto fora do Brasil. Agora, se seu dinheiro está investido em renda fixa, por exemplo, nos Estados Unidos (“bonds”), não fique triste, pois na verdade ele está rendendo tanto quanto o mesmo título se fosse no Brasil, pois o seu capital, dolarizado, no longo prazo, se valorizará,

quando da conversão em reais.


E tudo isso é natural.


Mateus Davi Pinto Lucio

GR Canis Majoris

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